Descobri que me enquadro com restrições na categoria de NOLT, a sigla que identifica os “novos velhos”: New Older Living Trend, em inglês, algo como a nova tendência de vida da turma acima dos 60 anos, que não mais se conforma em ser meros aposentados que "já deram o que tinham de dar” e agora vão, enfim, poder “descansar”. Nada disso.
Para uma boa parcela dos idosos a idade não limita as ambições de conhecimento, diversão, vida social, aprendizado, aventura... Os verdadeiros Nolts viajam, saem para dançar, vão à praia, namoram, malham...enfim, têm uma vida ativa, longe do estereótipo dos avós de antigamente, dos quais se esperava apenas que se dedicassem aos netos, à religião e às idas ao médico. Agora, as redes sociais ajudam a interagir e as limitações físicas, que naturalmente se impõem com a idade, são adiadas ou dribladas com ajuda de exercícios e caminhadas, e as academias de ginástica têm uma clientela sênior cada vez maior.
Eu quase posso ser definida como Nolt. Vejamos: fisicamente sou ativa, pois cuido sozinha da minha casa, lavo as roupas, cozinho, costuro para mim e minhas irmãs, vou ao mercado e tenho força para carregar as sacolas de compras (meu prédio não tem elevador e eu moro no primeiro andar), dirijo, toco alfaia e agbê aos sábados no Maracatu Real da Várzea, cuido da gatinha Coisa Linda, e faço trabalho voluntário cozinhando para comunidades com o pessoal do Movimento de Cozinha Popular nas quintas-feiras a tarde (foto). Mesmo assim, me considero sedentária por não fazer exercícios e passar sentada boa parte do dia; preciso voltar a me exercitar para o corpo acompanhar o mesmo ritmo do intelecto que, este sim anda muito bem obrigada.
Intelctualmente sou produtiva: fundei um clube de leitura, que se reúne uma vez ao mês; estou preparando meu primeiro livro de poesias; pesquiso e experimento receitas diet; estudo inglês pelo Duolingo; vejo filmes e séries (assino a Netflix); viajo para visitar minha filha na Europa; sou síndica do meu prédio por isso preparo planilhas de prestação de contas usando o Excel; me divirto jogando no tablet; leio em inglês e espanhol e arranho o francês...ou seja, só não sou uma Nolt verdadeira porque tem uma grande lacuna nesse caminho, além da preguiça de fazer exercícios: não sei fazer amigos e sou do tipo introspectiva, por isso me falta companhia para sair.
Tenho ido sozinha ao teatro, cinema, feiras de artesanato, shoppings e exposições, quando venço a preguiça de sair de casa, enfrentar o trânsito e procurar onde estacionar. Tenho tendência à solitude, que é gostar de estar só. Mas é chato não ter com quem conversar quando quero ir a um bar, um show ou sair pra dançar, o que então se transforma em solidão. Depois que morreu a amiga que mais inventava programas pra gente se divertir, somente minha irmã Nalvinha me acompanha, mas nem sempre. Ao longo dos anos as pessoas foram se afastando, e agora me restam pouquíssimas amigas, que encontro esporadicamente. Por isso que sou Nolt, mas nem tanto.
