Eu, Mariza

Livros, histórias e batuques de maracatu. Por Mariza Pontes.

Tópico: despedida

Adeus, Astro

Astro morreu. Meu lindo neto cachorro morreu na quarta-feira, dia 28, apenas dois dias depois de ter completado 13 anos (equivalente a 88 em idade de humanos). Ele tinha problemas decorrentes da velhice, como artrose, dificuldade de se levantar, lentidão, um princípio de surdez... já sabíamos que não passaria deste ano, pois a raça dele, Golden Retriever, vive no máximo 12 anos, mas ninguém imaginava que o fim chegaria da forma repentina que chegou.

No comecinho de setembro, quando estava passando férias em Valência, levamos os dois cachorros - Astro e Luna - ao veterinário, para exames de rotina, e ambos estavam muito bem. Maira contou que em dezembro ele começou a tossir. Às vezes chorava de noite, o que poderia ser devido à artrose. Mas ultimamente a barriga ficou inchada e foi preciso levar ao veterinário para exames mais apurados. Não deu outra: um câncer devastador de pulmão, com um tumor tão grande que estava pressionando o coração, expulsando um liquido infeccioso que estava invadindo os órgãos. Morrer seria uma questão de dias ou horas, e o sofrimento dele iria aumentar muito.

A eutanásia foi realizada. Maira e Jaanus, meu genro, voltaram arrasados para casa. Tenho conversado bastante com Maira, pois a vida segue e é preciso tocar o barco. Está sendo difícil para eles porque foram 13 anos de convivência, a presença de Astro está impregnada em todos os cantos da casa. Até para mim, que só convivia com ele nas férias, dá saudade. Sei que vou sentir muito a falta dele quando voltar a Valência e não pudermos mais colher figos (nós comíamos vários), nem brincar fingindo que tomava seu brinquedo preferido, um velho e amassado hamburguer de pano.

Adeus, meu neto lindo.

eu e Astro tomando sol no jardim escolhendo os figos que íamos comer

cachorros, despedida


Despedida n. 1

José,

Espero que você sinta muito remorso quando ler esta minha despedida... eu estou desolada, desesperada, infinitamente triste... sinto um peso enorme na alma, mas nem consigo mais chorar, as lágrimas não vêm aos olhos...estou asfixiada, minha garganta está travada, meu peito sufoca. Estou me afogando e não tenho ânimo para fazer nenhum esforço. Agora sei como é sentir doer o coração.

Não sei como pude ser tão ingênua, tão babaca, tão cega... Eu era feliz na minha ignorância, achava suficiente amar, ser inteligente, bonita, compreensiva, bom caráter, dividir as festas de família e os amigos, planejar viagens... o futuro parecia certo, aliás, eu nem pensava no futuro, achava que ele simplesmente chegaria: teríamos filhos, compraríamos uma casa, viajaríamos de férias, envelheceríamos juntos, sempre amorosos... e agora não tenho nada... Não quero ver ninguém, ouvir ninguém, não suportaria conselhos nem palavras de consolo... Só quero ficar sozinha com minha amargura imensa, minha tristeza, minha solidão, minha vontade de morrer.

Nunca pensei que tudo terminaria assim! Como foi que eu não percebi os sinais? E se tivesse percebido, seria possível impedir o que aconteceu? Fico remoendo tudo, dia após dia, todas as palavras, todos os teus passos, todas as evidências que estavam diante do meu nariz e eu tolamente não percebi, ocupada em te agradar, fazendo todas as tuas vontades...Você não foi capaz de dizer na minha cara o que estava se passando, foi omisso e covarde. Você não sabe o quanto eu lamento ter perdido minha juventude amando uma pessoa que não foi capaz de ser sincero comigo, de retribuir meus sentimentos com a mesma intensidade, de sequer ter consideração...

Nesse momento estou segurando os frascos de comprimidos que vão me libertar desse sofrimento. Espalhei na cama e contei, são mais de cem... Quero que você seja corroído pelo remorso, pois vou morrer por sua culpa. É tudo sua culpa… somente sua culpa!

Adeus

Contos, despedida


Despedida n. 2

José,

Eu estava tão magoada que só queria morrer de desgosto. Mas depois que escrevi pra você, que desabafei, percebi que morrer assim seria a maior besteira da minha vida, maior do que ter amado um sujeito tão medíocre, que não merece que mulher alguma morra por sua causa.

É, meu caro... faz uma semana que tudo mudou dentro de mim, mas esperei pra lhe falar porque, afinal, você bem que merecia sofrer ao menos um pouco, se sentindo responsável pela minha morte (se é que você é capaz de ter essa consciência...). Faz uma semana que venho me olhando no espelho, me tocando, me acarinhando, me refazendo, renascendo... Sinto que renasci, é isso. Estou viva e vou tratar de reconquistar tudo que abandonei por sua causa. Tenho certeza que a partir de agora minha vida vai ser mil vezes melhor do que a vida que eu levava ao seu lado.

Quando me encontrar não finja que não me viu, não desvie do caminho... Quero que me olhe nos olhos pra ver que eu já lhe esqueci e estou tratando de ser mais feliz do que antes. Como é bom não ter mais você no pensamento! Pena ter demorado tanto nessa relação... Mas, finalmente, o encanto acabou. Agora posso dizer, de alma lavada, como Reth Butler diz para Scarlet no final do filme E o vento levou: francamente, querido, dane-se!

Adeus, desta vez para sempre.

contos, despedida