Eu, Cora e o preconceito literário.
Eu nunca tinha lido Cora Coralina. Via ou ouvia referências, mas não tinha a curiosidade; sempre que me dava vontade de ler poesia escolhia um poeta clássico ou um moderno. Cora me parecia simplesmente ultrapassada, alguém que não tinha nada a me dizer.
Aí, recentemente, depois que instalei no tablet e no celular o app MEC-Livro, comecei a ler autores que antes não acessava, ou porque precisava poupar meu dinheiro e não podia investir em livros tanto quanto gostaria ou porque usava meu tempo para ler obras que considerava mais estimulantes. Com uma plataforma que disponibiliza os livros de graça e que posso ler a qualquer momento e em qualquer lugar, todas as desculpas caíram por terra. Passei a ter contato com os inúmeros autores que estão no vasto catálogo do MEC-Livro, e um deles é Cora Coralina. Grata surpresa.
Estou lendo Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais, seu livro de estreia, lançado em 1965, quando ela já contava 75 anos. Talvez por isso a leitura me atraiu, estou quase chegando lá, cronologicamente, e estreando na literatura com um livro de poesia, que espero lançar em breve.
Descobri em Cora uma poeta memorialista, ao mesmo tempo densa e sensível. Sua poesia, pelo menos nesse primeiro livro, se revelou muito visual para mim. A cada poema me vejo de mãos dadas com ela, menina e adolescente tímida e pobre de Goiás, percorrendo becos sujos, apreciando casarões, indo à escola, atravessando pontes, subindo morros, frequentando missas, vendo passar a boiada, ouvindo estórias de assombração, improvisando brinquedos... muita coisa dessa vivência remete à minha própria infância e adolescência, guardadas as devidas proporções sendo eu nascida e criada no Recife.
Vou ler outros livros dela, e já inclui na minha lista muitos outros autores brasileiros que não li por puro preconceito literário, uma falha terrível que pretendo remediar.
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