A gargalhada de Carrero
Morreu na madrugada do dia 16 uma das pessoas inesquecíveis da minha vida: Raimundo Carrero, escritor e jornalista. Não fui ao velório nem ao enterro. Já era difícil ver como ele ficou depois do AVC que teve alguns anos antes, embora sempre o congratulasse pela superação, recuperando a fala e o andar. Mas a recordação que quero guardar de Carrero é a do amigo de juventude, homem forte e generoso, com uma presença que enchia o ambiente com sua gargalhada estrondosa e contagiante. Escrevi sobre isso no número especial da revista online Araçá, que o homenageou (www.aracarevista.com.br).
Segue o depoimento que a revista publicou:
"O que mais lembro de Carrero é a gargalhada. Era tonitroante, palavra que descreve bem o som que enchia a redação do velho Diario de Pernambuco, onde eu comecei a trabalhar aos 22 anos. Ao anoitecer, a voz poderosa se sobrepunha ao barulho das máquinas de escrever, na correria do fechamento da edição do dia. Era uma presença forte, ruidosa e engraçada; um chefe amigo, generoso e compreensivo das falhas humanas, mas exigente na qualidade do trabalho. Nos anos 70 e 80 acompanhei muitas das suas histórias, compartilhando farras nos bares do Recife Antigo, quando saíamos da redação; ele contava de suas paixões, histórias cheias de reviravoltas, algumas das quais suspeito que serviram de inspiração literária. Tive a honra de ser uma das primeiras leitoras do seu livro de estreia, A História de Bernarda Soledade, a Tigre do Sertão, lançado em 1975, que recebi com dedicatória. Ele pediu minha opinião e eu fiquei intimidada: o que poderia dizer uma simples repórter pra alguém que já era um jornalista conhecido no Recife e despontava tão fortemente para a literatura? Não disse nada, mas guardo até hoje o livro como um dos meus tesouros. Depois passamos muitos anos sem conviver de perto, apenas encontros esporádicos, cada qual levando a vida, até 2008, quando ele me convidou para integrar a equipe que formou para reformular o suplemento Pernambuco, da Cepe Editora. As conversas agora incluíam filhos, trabalho e casamento, ele já não se entregava às farras, e logo a idade começou a cobrar seu preço, mas a paixão pela literatura continuava cada vez mais forte. E a gargalhada também. E é essa a imagem que vou guardar de Raimundo Carrero: um homem generoso, inteligente, apaixonado pela vida e pelas pessoas, com uma gargalhada que enchia o ambiente e fazia a gente rir junto".
Esta foto foi feita na redação do suplemento Pernambuco, da Cepe, em 2008.

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